sexta-feira, 21 de junho de 2019

Entre o Sagrado e o Profano mora a poesia


Por Patrícia Leite






















Sim,  em outubro de 2016, o poeta Jesus apareceu na TV. É verdade. Estreou no mesmo mês em que Deus e eu terminamos a nossa programação diária. 

No dia 17, daquele mês, para ser mais precisa, Deus e eu rompemos uma transmissão que parecia caminhar para uma longa, consagrada e dinâmica audiência. 

O Ibope do nosso programa despencou sem razão aparente. Nunca soubemos explicar o porquê. O fato é que, de um minuto para o outro, o animado dueto do horário nobre, não funcionava mais.

Estranha coincidência a saída de um e a chegada do outro? Não sei! Acho que não. Há muito, não acredito no acaso. O fato é que passado pouco mais de um ano, em 23 de fevereiro de 2018, estávamos nós [o poeta Jesus e eu] entrelaçados preparando o script da mais genial comédia romântico-musical que já se teve notícia.

Todos diziam: – Uma delicia vê-los contracenar.

Nos ensaios, era um misto de cheiros, peles, nervos, pés, mãos, suores, pelos e  fluidos de todos os tipos.

Aquela química toda, temperada com vinho, olhares e sons indecifráveis se espalhava pelo ar e contaminava a todos nos estúdios e nos bastidores.


O grande dramaturgo não desperdiçou uma cena proposta pelo elenco. Os atores, por fim, também não se fizerem de rogados... Se debruçaram e se puseram a escrever arrojadas cenas para essa trama.

E já não eram apenas cacos de textos enxertados quando as colas não estavam por perto e a memória parecia falhar. Criavam capítulos inteiros e se divertiam com isso.

A vida era um turbilhão de risos, piadas internas, poesias e danças desnudas de tudo: de pudores, de imposições sociais, de acatos.

Eles eram a melhor e mais perfeita crônica étnica. Ele negro e ela índia. Peles super pigmentadas emaranhadas em cabelos lisos, barbas e bigodes crespos.

Em dezembro de 2018, o autor resolveu colocar alguns atores coadjuvantes e Iram e Verônica entraram para a trupe. 

Outros núcleos do programa também ganharam mais visibilidade. O poeta Jesus trouxe para o centro da trama a Galega, uma história paralela que havia começado anos antes, em uma cidade do sul do país.

De alguma forma, ele começava a dar sinais de que deixaria a Tv. No fundo, ele nunca escondeu que preferia o teatro mambembe.

Entre a última semana de fevereiro de 2019 até o dia 8 de março [Dia Internacional da Mulher], ele resolveu dar uma pausa na temporada e foi passar férias pelas bandas do sul. A ideia era se debruçar sobre o velho roteiro de Cora Coralina e transformá-lo em livro.

Correndo pelos estúdios de gravação, a contrarregra simplesmente parou a estrela principal e disse que a chegada de Santos na trama da nova temporada em nada mudaria o que ela sentia pelo poeta. E que Santos não combinava com ela.

A protagonista nem conhece Santos, mas ele já traz consigo o rótulo de não ter um décimo da poesia que ela desfruta hoje.  

Mas ela e o poeta sabem que estão escrevendo as últimas estrofes, que tudo que resta são algumas poucas rimas. Assim sendo, é difícil não tentar pensar em novas métricas. Outros textos precisam ser escritos, eles sabem.

Virou-se sobre os calcanhares, ignorou o aviso. No pensamento, propostas, divagações... Preciso de algo que rime com Santos, pensou. Algo que, na pior das hipóteses, me estimule a pensar que ele pode fazer parte da nova história.

É que, no fim das contas, dialogou com seus botões, chegue quem chegar, ao seu lado esse alguém sempre será sucesso.

Sim, aquela atriz gostava de pensar: "não são meus homens que são especiais. Há algo especial em mim que desperta o melhor que há neles. Venha quem vier teremos sempre um novo pico de audiência. Porque história boa sempre vende.


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