sexta-feira, 1 de março de 2019

SOBRE OS ESCOMBROS


Por Patrícia Leite
1/03/2019





Era véspera do meu aniversário. Por hábito, fiz aquela velha faxina nas minhas casas – a que moro e as que permito que morem- . Só os meus amores moram em mim, penetram em minhas grutas, em minhas entranhas.






O Pensamento andou em círculos. Minhas grutas... Tenho tantas: secas, úmidas e absurdamente molhadas. Tenho rios e cachoeiras em mim.

Por definição, caverna, gruta ou furna é toda cavidade natural rochosa com dimensões que permitam acesso a seres humanos.






Em alguns casos, essas cavidades também podem ser chamadas de tocas, lapas ou abismos.

Num rápido giro etimológico mental, lembrei que caverna exibe como raiz espeleo, palavra derivada do latim – spelaeum-, de onde, diga-se de passagem, também tem raiz a palavra espelunca.

Detive-me por longo tempo aí, nesse exato ponto das derivações dessa palavra: espelunca, - casa mal feita, ruínas-, escombros...


Revisitei as muitas vezes que me senti ruínas e botei olhos em outras tantas que fui monumento, rocha que edifica, pedra fundamental.



Construí castelos de areia...

Minha estrada estava repleta de sapês, casas caiadas e castelos. Sucessos, conquistas e revezes. Fui eu tascas, bibocas e baiucas...

Mas foi na moradia simples, rústica e pequena em que fui mais feliz.

Desapego de mansões…

Minha morada é em qualquer lugar onde caiba meus amores, pois que lar é para mim também uma cavidade, um templo em minha geografia.

Descobri uma catedral em mim, na minha própria arquitetura. Exímia, pequena, desobrigada de monumentalidade e absolutamente suficiente.

Sempre tive dúvidas entre ficar ou ir. Dessa vez, foi fácil decidir. Simplesmente deixei a vida se mover sobre os escombros.

Repaginei tudo, customizei o que foi possível e, ao terminar, me dei conta de que um pensamento tomou assento: quando o amor não for mais o prato do dia, a vida não está onde deveria ficar. É hora de mudar de CEP.


Talvez, seja a isso que chamam de maturidade. Iluminar o barro de que somos feitos.




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