Por Patrícia Leite
[Em 13 de abril de 2014]
O
vento não passava
de dez nós. Mas
a
vela de seus
sentimentos estava
preparada
para encarar a ferocidade de
uma
enorme tempestade
tropical.
Sentia-se
cansada. E naquela
noite, permitiu-se
relaxar. Afrouxou
os cabos de sua
emoção
e se
deixou
levar ao
sabor do vento.
Ao
longe, ouviu o som de tambores modernos...Por
um instante, tentou ignorar. Não
conseguiu. Era
ele. Ainda bem que não ignorou o chamado!
Ela
havia
passado o dia velejando
e ouvindo
os
conselhos
de
Nora
Jones e
não
soube dizer se o
turbilhão que emaranhava seus pensamentos vinha
desses
conselhos ou se ela já
estava
sobre
os
efeitos
do eclipse lunar.
O
fato é que se permitiu,
naquela madrugada, a bordo do Netuno, ficar
olhando para aquele imenso satélite que prateava as águas abrigadas
de seu descanso e
que
roubava
de suas lembranças pinceladas
de sonhos para desenhar
uma
nova tela com rostos
e
corpos a
fazer amor.
Realidade
fantástica, concluiu
sem
externar o pensamento.
Naquele
instante, pensou
ter
visto
o próprio Éolo
soprando rajadas sobre as águas e trazendo consigo,
na
força de sua
respiração, o sopro vívido das
palavras tão esperadas. Eles
estavam
prometidos um ao outro. Ela sabia. Ele sabia. Teimosos queriam se
deixar ser guiados apenas
pelos
falhos equipamentos da razão.
Mas
ambos são pura
emoção...
Um
sábio Espírito velho já os
havia
alertado que não haveria distância que não fosse percorrida por
eles.
Que
o amor que
os unia vida-a
pós-vida
superaria
coisas das quais pensaram
um dia ser
insuperáveis.
Mas
foi
ao ver o Deus dos ventos trazer notícias do lado de lá
que ela se lembrou
do último aviso xamânico
que
recebeu:
“Quanto mais correrem...Mais
se jogarão nos braços um do outro. A distância trará a
consciência
do quanto precisam
estar
perto.”
E
foi na mítica deste momento que a
lua cheia foi
lentamente
sendo
encoberta,
sendo
tingida de vermelho.
A
lua ficou
ruborizada. Os
incrédulos chamaram de eclipse
lunar
o
fenômeno simbólico provocado pelos deuses.
Mas
o
satélite
estava consciente de
que
estava
presenciando um reencontro há
muito esperado.
Ela
ficou estática, olhando
para o céu, observando
seus
ancestrais apagarem
lentamente
o
brilho da lua
e
aumentarem
no mesmo ritmo
a
incidência do brilho do pôr-do-sol que escoava
pela atmosfera terrestre.
Ele
finalmente disse que a amava...
Não fosse seu sangue indígena a paixão
daquele
momento teria
lhe toldado a
visão da
realidade para
sempre. Pensou
em largar tudo e ir de encontro ao seu destino. Mas
prometeu esperar porque
sabe que quando ele vier será para sempre.
E
deste
ritual de amor sobrou um registro no céu que a humanidade batizou
de
LUA DE SANGUE.

Não tem como correr do que já está traçado...
ResponderExcluirSim, não é possível correr do que está escrito.
ResponderExcluirAbraços...
Patty
você é muito louca, desde que te conheci no festival Sagarana vi que era uma desses loucos tipos Guimarães Rosa, Profeta Gentileza etc....... com o tempo nossa amizade me provou.. te adimiro muito
ResponderExcluirRay, lisonjeada com a sua crítica. Não chego nem aos pés desta tribo. Profeta gentileza é sensacional e Guimarães Rosa é simplesmente um dos maiores ícones da nossa literatura. Mas fico feliz que tenha gostado da crônica e que me ache tão louca quanto eles.
ResponderExcluirabraços,
Guimarães Rosa quase que sempre me conduz ao sertão brasileiro, um lugar distante de tudo, imagino aquele clima semi-árido, quente e seco, já com essas palavras acontece algo excêntrico, elas me levam em uma especie de barco a vela diretamente pro meu quintal, me sinto aqui! exatamente no meio do Lago Paranoá. Parabéns Patricia! Ótimas conexões!
ResponderExcluirJhonatan Vieira, você e Ray Amaral fizerem leituras avessas, contrapostas e singularmente complementares...São conexões do invisível, ao meu ver. Não é à toa que tenho o hábito de dizer que nos desapropriamos do texto no momento em que o outro o lambe com os olhos. O texto e suas significações mudam de acordo com a bagagem pessoal. Para mim, como autora, só me resta agradecer. abraços,
ExcluirLua de Sangue...Mandala do Amor!! Lindo, Patrícia.
ResponderExcluirMandala do amor... Bom título para uma outra crônica. Rsrsrs... Obrigada!
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