segunda-feira, 21 de abril de 2014

LUA DE SANGUE

Por Patrícia Leite
[Em 13 de abril de 2014]




O vento não passava de dez nós. Mas a vela de seus sentimentos estava preparada para encarar a ferocidade de uma enorme tempestade tropical. Sentia-se cansada. E naquela noite, permitiu-se relaxar. Afrouxou os cabos de sua emoção e se deixou levar ao sabor do vento.

Ao longe, ouviu o som de tambores modernos...Por um instante, tentou ignorar. Não conseguiu. Era ele. Ainda bem que não ignorou o chamado!

Ela havia passado o dia velejando e ouvindo os conselhos de Nora Jones e não soube dizer se o turbilhão que emaranhava seus pensamentos vinha desses conselhos ou se ela já estava sobre os efeitos do eclipse lunar.

O fato é que se permitiu, naquela madrugada, a bordo do Netuno, ficar olhando para aquele imenso satélite que prateava as águas abrigadas de seu descanso e que roubava de suas lembranças pinceladas de sonhos para desenhar uma nova tela com rostos e corpos a fazer amor.

Realidade fantástica, concluiu sem externar o pensamento.

Naquele instante, pensou ter visto o próprio Éolo soprando rajadas sobre as águas e trazendo consigo, na força de sua respiração, o sopro vívido das palavras tão esperadas. Eles estavam prometidos um ao outro. Ela sabia. Ele sabia. Teimosos queriam se deixar ser guiados apenas pelos falhos equipamentos da razão. Mas ambos são pura emoção...

Um sábio Espírito velho já os havia alertado que não haveria distância que não fosse percorrida por eles. Que o amor que os unia vida-a pós-vida superaria coisas das quais pensaram um dia ser insuperáveis.

Mas foi ao ver o Deus dos ventos trazer notícias do lado de lá que ela se lembrou do último aviso xamânico que recebeu: “Quanto mais correrem...Mais se jogarão nos braços um do outro. A distância trará a consciência do quanto precisam estar perto.”

E foi na mítica deste momento que a lua cheia foi lentamente sendo encoberta, sendo tingida de vermelho. A lua ficou ruborizada. Os incrédulos chamaram de eclipse lunar o fenômeno simbólico provocado pelos deuses. Mas o satélite estava consciente de que estava presenciando um reencontro há muito esperado.

Ela ficou estática, olhando para o céu, observando seus ancestrais apagarem lentamente o brilho da lua e aumentarem no mesmo ritmo a incidência do brilho do pôr-do-sol que escoava pela atmosfera terrestre.

Ele finalmente disse que a amava... Não fosse seu sangue indígena a paixão daquele momento teria lhe toldado a visão da realidade para sempre. Pensou em largar tudo e ir de encontro ao seu destino. Mas prometeu esperar porque sabe que quando ele vier será para sempre. E deste ritual de amor sobrou um registro no céu que a humanidade batizou de LUA DE SANGUE.

8 comentários:

  1. Não tem como correr do que já está traçado...

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  2. Sim, não é possível correr do que está escrito.

    Abraços...

    Patty

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  3. você é muito louca, desde que te conheci no festival Sagarana vi que era uma desses loucos tipos Guimarães Rosa, Profeta Gentileza etc....... com o tempo nossa amizade me provou.. te adimiro muito

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  4. Ray, lisonjeada com a sua crítica. Não chego nem aos pés desta tribo. Profeta gentileza é sensacional e Guimarães Rosa é simplesmente um dos maiores ícones da nossa literatura. Mas fico feliz que tenha gostado da crônica e que me ache tão louca quanto eles.

    abraços,

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  5. Guimarães Rosa quase que sempre me conduz ao sertão brasileiro, um lugar distante de tudo, imagino aquele clima semi-árido, quente e seco, já com essas palavras acontece algo excêntrico, elas me levam em uma especie de barco a vela diretamente pro meu quintal, me sinto aqui! exatamente no meio do Lago Paranoá. Parabéns Patricia! Ótimas conexões!

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    1. Jhonatan Vieira, você e Ray Amaral fizerem leituras avessas, contrapostas e singularmente complementares...São conexões do invisível, ao meu ver. Não é à toa que tenho o hábito de dizer que nos desapropriamos do texto no momento em que o outro o lambe com os olhos. O texto e suas significações mudam de acordo com a bagagem pessoal. Para mim, como autora, só me resta agradecer. abraços,

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  6. Lua de Sangue...Mandala do Amor!! Lindo, Patrícia.

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  7. Mandala do amor... Bom título para uma outra crônica. Rsrsrs... Obrigada!

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