Por
Patrícia Leite
Amou
com tanta intensidade que achou que seria absorvida, tragada para
dentro de si. Podia sentir ainda o calor do corpo amado deitado ao
seu lado.
Os
lençóis, o travesseiro, o quarto e seu corpo ainda guardavam o
cheiro deles. E foi com um certo receio que abriu lentamente os olhos
para certificar-se se aquilo tudo estava acontecendo realmente.
Constatou
o óbvio. Não estavam mais juntos, ela sabia. E ele estava a
centenas de quilômetros. Tudo não passou de um sonho. Todavia, o
momento parecia tão real.
Levantou
da cama com o coração ainda disparado e a respiração ofegante,
bebeu água e ficou por um tempo – que não soube depois
quantificar quanto –, envolvida naquelas lembranças...
O
sono demorou a voltar e os pensamentos dançavam prelúdios de um
tempo que estava por vir. Relembrou promessas e fez exercícios
mentais dos lugares que visitariam juntos.
Deixou
o pensamento bailar e antecipar a tão desejada liberdade. Teriam uma
vida calma...
Nadariam
nus em mares azuis e se aqueceriam em fogueiras noturnas, acesas em
praias desertas, de algum paraíso tropical.
Ela
dançaria para ele sob a chuva, tendo apenas como veste os longos
cabelos negros... Sonhar, dizia ele, é sempre o primeiro passo para
um desfecho real, relembrou ela.
Mas,
apesar dos sonhos e da imensidade da extensão dos sentimentos que os
uniam, mesmo que distantes, a ausência dele provocava vazios. E
aquele vácuo
era um sentimento angustiante.
Ela
precisava
manter
ocupado aquele espaço
vital. Mas
toda
aquela ausência dava a
ela uma
sensação de quase morte. O
que fazer diante daquela privação,
daquela
ausência,
e
daquela dor
lacerante que jorrava
da saudade?
Ela
não sabia o que fazer diante da extensão indefinida do tempo de
estar juntos, e este intervalo entre o momento da ausência e o ponto
da presença impõe grandes espaços de tempo...Provoca silêncios
ensurdecedores...Abismos...vazios...
Sem
ele seu espírito é apenas um corpo que cai livremente na calçada
desta selva de pedra imposta pela urbanidade e pelas leis do consumo
das interações ocas.
Sim,
concluiu que esperaria o retorno do preenchimento dos espaços vagos
porque concluiu que suas almas afins são o verdeiro território de
estar.
O
sono toldou-lhe os pensamentos...Mas, antes que ela voltasse a
adormecer, uma brisa, breve, fugaz, soprou-lhe um conselho ao pé do
ouvido...
– Sem
ser você e ele, sem dar verdeiro sentido ao que é ser “nós”...
Este conjunto que vocês formam deixa de ser laço… E tudo passa a
ser vão,
fútil, frívolo: rituais vazios.

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