sexta-feira, 25 de abril de 2014

ESPAÇOS & VAZIOS

Por Patrícia Leite



Amou com tanta intensidade que achou que seria absorvida, tragada para dentro de si. Podia sentir ainda o calor do corpo amado deitado ao seu lado.

Os lençóis, o travesseiro, o quarto e seu corpo ainda guardavam o cheiro deles. E foi com um certo receio que abriu lentamente os olhos para certificar-se se aquilo tudo estava acontecendo realmente.

Constatou o óbvio. Não estavam mais juntos, ela sabia. E ele estava a centenas de quilômetros. Tudo não passou de um sonho. Todavia, o momento parecia tão real.

Levantou da cama com o coração ainda disparado e a respiração ofegante, bebeu água e ficou por um tempo – que não soube depois quantificar quanto –, envolvida naquelas lembranças...

O sono demorou a voltar e os pensamentos dançavam prelúdios de um tempo que estava por vir. Relembrou promessas e fez exercícios mentais dos lugares que visitariam juntos.

Deixou o pensamento bailar e antecipar a tão desejada liberdade. Teriam uma vida calma...

Nadariam nus em mares azuis e se aqueceriam em fogueiras noturnas, acesas em praias desertas, de algum paraíso tropical.

Ela dançaria para ele sob a chuva, tendo apenas como veste os longos cabelos negros... Sonhar, dizia ele, é sempre o primeiro passo para um desfecho real, relembrou ela.

Mas, apesar dos sonhos e da imensidade da extensão dos sentimentos que os uniam, mesmo que distantes, a ausência dele provocava vazios. E aquele vácuo era um sentimento angustiante.

Ela precisava manter ocupado aquele espaço vital. Mas toda aquela ausência dava a ela uma sensação de quase morte. O que fazer diante daquela privação, daquela ausência, e daquela dor lacerante que jorrava da saudade?

Ela não sabia o que fazer diante da extensão indefinida do tempo de estar juntos, e este intervalo entre o momento da ausência e o ponto da presença impõe grandes espaços de tempo...Provoca silêncios ensurdecedores...Abismos...vazios...

Sem ele seu espírito é apenas um corpo que cai livremente na calçada desta selva de pedra imposta pela urbanidade e pelas leis do consumo das interações ocas.

Sim, concluiu que esperaria o retorno do preenchimento dos espaços vagos porque concluiu que suas almas afins são o verdeiro território de estar.

O sono toldou-lhe os pensamentos...Mas, antes que ela voltasse a adormecer, uma brisa, breve, fugaz, soprou-lhe um conselho ao pé do ouvido...

Sem ser você e ele, sem dar verdeiro sentido ao que é ser “nós”... Este conjunto que vocês formam deixa de ser laço… E tudo passa a ser vão, fútil, frívolo: rituais vazios.





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